Com a chegada de seu casal de filhos, surdos, também aptidões que ela desconhecia
02/02/26 às 17:38:48) Um bate-papo, e de suma importância, no fim de semana, foi com a professora Neuli da Luz Cordeiro de Souza. Ela é tradutora e interprete de Libras, bastante requisitada no município, e contou de sua jornada nessa função, e como a chegada de seu casal de filhos, hoje adultos, a fez lutar ainda mais para os vê-los inclusivos, sendo ambos, surdos. A bonita união, de mãe e filhos, se tornou ainda mais forte – e vencedora, por este desafio, hoje superado!
“Tem vinte anos... mais de vinte anos que comecei a aprender muitos sinais”. Comentado com ela, que quem não escuta, também não consegue falar, explicou: “Não exatamente não vai conseguir falar”, informando que tem um treinamento que pode ajudar a desenvolver a fala, ponderando no entanto, que “não são todos que vão desenvolver”.
Quando o Oberekando afirmou que felizmente a sociedade, ou o Brasil especificamente, acordou para a inclusão mais abrangente aos surdos, ela trouxe algo que certamente é desconhecido pela maioria da população: “Na verdade, a Língua de Sinais foi extinta há cerca de 100 anos, no Congresso de Milão, em 1880”, e, informou ela, “a partir de 2002, é que aqui no Brasil se começou a ser vista com melhores olhos, e foi sendo difundida”. E isso, mundialmente. Mais ainda, explicou que era alegada que a Medicina iria resolver esta deficiência, e que alguns professores achavam que o surdo poderia falar. E aí, “eles foram obrigados a deixar de sinalizar e usar só a oralidade. Para eles foi muita tortura, porque os surdos mais velhos que a gente conversa... eles reclamam muito desse tempo, porque foi um tempo muito obscuro na vida deles, onde eles eram proibidos de sinalizar. E os surdos que estavam nos colégios internos..., eles dizem que eles tagarelavam com as mãos quando não tinha ninguém olhando. Quando alguém surgia, eles mais que depressa, colocavam as mãos para trás para poderem pensar que eles estavam só falando!”.
Ela começou a aprender em 2000, e os passos aqui, disse, estavam muito lentos, e não tinha intérprete, “tanto que eu estudei com o meu filho por conta disso. Fui para o Ensino Médio com o meu filho, né? Eu precisava voltar a estudar... eu voltei a estudar com ele por conta de não ter intérprete formado ainda na área. E eu já estava andando, engatinhando; e eu fui estudar com ele para poder o ajudar”.
A IMPORTÂNCIA DA INTERPRETAÇÃO
É muito bom ver, que nos eventos em que eles estão, observar suas mãos com o movimento de aplauso e eles, interagindo: “Quando eles são ouvidos, eles se sentem mais humanos, mais inclusos, porque a exclusão ainda existe, infelizmente, apesar de ter a Língua de Sinais... a gente vê muita coisa nas redes sociais..., ainda assim acontece”.
A CHEGADA DOS FILHOS E A DESCOBERTA QUE PODERIA SER PROFESSORA!
Ao lembrar a vinda dos filhos e o incentivo devido ao momento deles, que ela voltasse a estudar, disse: “Eu, antes dos meus filhos, antes de eu reconhecer, de eu perceber, de eu ser incentivada para voltar a estudar, para ajudá-los, eu era uma pessoa... Eu era aquela pessoa lá do mundo da caverna, lá de Platão. Eu era aquela pessoa lá, fechada, tapada. E aí, quando eu voltei a estudar, vi uma infinidade de possibilidades, além de estar fazendo a ponte, o elo de comunicação entre os meus filhos e as outras pessoas, e dos seus amigos também. E também... através dos amigos que me incentivavam para eu ser professora. Eles diziam, ‘ah, você combina ser professora da Língua de Sinais!’. Até então, eu só tinha visto, quando eu era bem criança, né?”
Esse sonho, foi esquecido por um tempo, e parou de estudar pois tinha que cuidar dos irmãos menores, mas, depois disso, “foi me abrindo horizontes que eu poderia ser essa pessoa que podia ajudar os outros e ainda tendo a minha independência financeira”.
Respondeu ao Oberekando se antes dos filhos nascessem, teve essa ligação ou curiosidade com Libras, dizendo que não: Na verdade, eu nem tinha ideia da Língua de Sinais... Achava que antigamente, lá quando a gente conhecia alguma pessoa surda, que só tinha o termo ‘o mudinho, a mudinha, a mudinha do fulano, o mudinho do ciclano’... que as pessoas não eram nem nomeadas, não tinham nomes, né? Triste! Ninguém reconhecia o nome”.
Até mesmo quando seu filho foi para a escola, ainda não era permitido Libras, sendo que ele teve acesso somente entre seus 10 a 12 anos. Quando a filha nasceu, já estava iniciando, e aí ela foi ter conhecimento.
CURSO À DISTÂNCIA, INDICADO POR DRA. MÔNICA BARRETO
A professora fez um curso à distância, para familiares de surdos e pelo correio, e com uma mãe de uma surda que era formada em Psicologia. Tratava-se de Érica Maria Maestri, de Curitiba, mãe de Rita, a psicóloga. Era o movimento familiar ‘Voz do Silêncio’ e quem a recomendou foi da Dra. Mônica Barreto, da Evolua, inclusive, querida patrocinadora do Oberekando. Ela foi a fonoaudióloga dos filhos da entrevistada, desde a infância!
Os filhos da entrevistada chamam-se André Cordeiro de Souza (39) e Karile Cordeiro de Souza (30), e ambos têm formação universitária, e em Pedagogia, Letras/Libras, e somente ela optou por atuar, e sua admissão nos quadros da Prefeitura de Telêmaco, em concurso, como professora de Cmei, foi manchete, inclusive, no Site da Prefeitura Municipal de Telêmaco.
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR
Ela respondeu ao Site, sim, se o discurso de posse da primeira-dama, Michele Bolsonaro, foi um marco na luta de maior reconhecimento às pessoas surdas, e pró inclusão: “Acredito que sim! Foi... as pessoas começaram a ver melhor, eu acredito, a Língua de Sinais. Começaram a perceber mais a importância da inclusão, de ter alguém, principalmente lá, para lutar depois!”.
CARÊNCIAS NACIONAIS NESTE SENTIDO
No geral, ela vê que falta muito quando se fala da necessidade de intérpretes de Libras: “Deveria ter em todos os canais... em todos os eventos deveria ter alguém ali, porque os surdos sentem falta. Eles precisam de alguém ali, principalmente quando não tem alguém da família que possa passar para eles”. Desabafa: “São pessoas que nem todo mundo vê, nem todo mundo enxerga, não vê que eles têm potencial, que eles são pessoas com sentimentos como todos nós, com desejos, com sonhos, não é?”
BULLYNG: Nesta questão, disse que quando eles eram menores, ela como mãe, também sofria muito: “E eu nem sabia defender os meus filhos! Eu só dizia quando faziam uma crítica, ‘ele é um mudinho, ele é retardado’..., eu via isso, nossa, ele é retardado, está demorando para falar, porque ele é retardado, então isso me doía muito, mas eu também não tinha conhecimento, eu não tinha muito conhecimento, e hoje eu não me incomodo mais, porque eu imagino que as pessoas não têm conhecimento! Não vou dizer que são ignorantes, ou até são, porque às vezes não querem enxergar uma coisa que não é porque são surdos, não é porque não têm uma fala normal como a nossa, que eles são inferiores aos outros”. Triste quando às vezes as pessoas arremedam os surdos naquilo que mais ou menos eles oralizam! Pior, são as piadinhas por vezes, dentro da própria família”.
Sempre se vê, que quando há uma deficiência, existe uma compensação enorme em outros setores da vida dos implicados, e a professora citou que tem surdos artistas... “surdos que fazem desenhos lindamente, aqui mesmo no nosso meio a gente tem! Têm surdos que fazem piadas, que são humoristas, eles fazem bastante graça. É bem gostoso de ver essa veia artística. Cada um tem a sua luz, seu modo de ser!”.
CURRÍCULO
Neuli está lotada no Instituto Federal do Paraná -IFPR - no período da manhã, à tarde, como professora intérprete na Escola Juventina, na Rede Municipal.
FORMAÇÃO
Proficiência em Tradução e Interpretação Libras/ Língua portuguesa/ Libras - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);
Licenciatura em Pedagogia;
Licenciatura em Letras Libras;
E, Psicopedagoga e Educação Especial Inclusiva.
CURSO DE LIBRAS
Ela oferece curso de Libras nas terças e quintas, sendo o primeiro, na igreja Nossa Senhora Aparecida, no Socomim, e o segundo, no Centro Comunitário, do mesmo bairro.
Diversos familiares e até adolescentes e jovens, têm participado das aulas da professora, e isso traz à luz, o entendimento da necessidade de inclusão: “Então, eu fico muito feliz, porque o público que a gente está atendendo, todo mundo já tem a sua profissão, então, digamos assim, eles não estão fazendo o curso por interesse em ganhar dinheiro! Eles querem simplesmente aprender a se comunicar mesmo com os surdos, com a comunidade surda. Em estar presente onde a comunidade surda está! Então, isso é um privilégio para a gente”. Confidenciou ela, que alguns imaginam que o aprendizado seria mais fácil, mas falou, com bom humor: “Não é só ir lá no curso, faz uma hora e meia de aula, e só voltar na outra semana e já vai aprendendo”. Comparou a aprender algum esporte, que tem que ter prática constante!
EVENTOS... A SENHORA PODE SER A INTERPRETE?
Muitos convites feitos, ela em geral, educadamente, tem que recusar, devido estar atarefada com suas funções, no IFPR e Educação Municipal. Sobram os sábados, dia em que pode se comprometer, quando estiver livre. Detalhe de suma importância, é agendar, se necessitar, com bastante antecedência: O contato dela é (42) 9.9822-2332.
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